Diversidade

Tostão, 28/Agosto/2005

Uma das palavras que mais gosto é diversidade, pela sonoridade e,
principalmente, pelo significado. Ela está na arte, na ciência, na natureza e
em tudo na vida. Até os gêmeos fisicamente idênticos são diferentes. O ambiente
individualiza os seus desejos.

O mundo fica repetitivo, sem graça, quando existe apenas um único pensamento,
uma única visão psicológica, filosófica e política, um único estilo de vida, um
único esquema tático no futebol, um único tipo de doce de coco, uma única
televisão para assistir à Copa e outras situações pouco democráticas.

Espero que todas as televisões, abertas e fechadas, como já anunciou a ESPN
Brasil, transmitam o Mundial de 2006, e não somente a TV Globo, como aconteceu
em 2002. A audiência maciça da Globo vai continuar, mas, pelo menos, haverá
opções.

Por causa de sua diversidade, o futebol é o esporte mais emocionante, mais
plástico e mais visto no mundo. Nunca se sabe o que vai acontecer em um lance,
em uma partida. Até o Leandro do Fluminense, que não sabe finalizar, de vez em
quando faz gols.

Além de ótima técnica e habilidade, o craque é geralmente o que tem mais
repertório de jogadas, o que mais surpreende. De onde vem essa diversidade,
esse saber? Ele associa e pensa antes dos outros ou faz sem pensar? Seria
apenas um reflexo medular?

A diversidade no futebol está também no grande número de posições em campo e na
diferença de características e de qualidade dos jogadores. O encanto do atual
Campeonato Brasileiro é ter vários times na disputa do título.

O desenvolvimento científico aumentou a diversidade de profissionais, a
competência das comissões técnicas e ajudou na evolução do futebol. Quando
iniciei a carreira profissional, em 1963, dois anos antes da inauguração do
Mineirão, havia na comissão técnica do Cruzeiro um técnico que dava também os
treinos físicos, um massagista, um roupeiro, um diretor amador e um médico, que
era ginecologista. Hoje, há muitos especialistas médicos, preparadores físicos,
técnicos de goleiros, olheiros, fisiologistas, fisioterapeutas, nutricionistas,
supervisores, gerentes, palpiteiros oficiais, muitos seguranças e “aspones”
(assessores de nada).

Por preconceito, desconhecimento e machismo, já que existe um grande número de
profissionais mulheres, muitos clubes não têm psicólogos. Treinadores e
dirigentes preferem as palestras dos motivadores, com seus discursos óbvios e
de lugares-comuns.

A diversidade está também na crônica esportiva. Gosto e aprendo quando me
convencem com opiniões diferentes das minhas. É preciso estimular o debate e as
divergências, desde que sejam com bons argumentos. Porém há pessoas, em todas
as profissões, que não querem aprender. Geralmente são as que menos sabem e as
que mais acham que sabem.

Ao mesmo tempo que a diversidade está em todos os lugares, há uma tendência,
uma compulsão, em fazer sempre tudo igual. O que é novo amedronta. A repetição
aprimora a técnica, organiza a vida, mas, se excessiva, empobrece a
criatividade.

Fonte: Jornal Folha de São Paulo


Um Comentário para “Diversidade”  

  1. 1 Guilherme M.

    Vocês não acham q esse texto do Tostão poderia estar perfeitamente se referindo a um DJ ou músico? Por exemplo, quando ele fala “craque é geralmente o que tem mais repertório de jogadas, o que mais surpreende”, não poderíamos trocar por “um DJ craque é geralmente o que tem maior repertório de músicas, o que mais surpreende nas escolhas de faixas”? Tem outras partes do texto que cabem neste paralelo….

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